Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Stop Sentimental (e Mentiras)

Ganham forma nos dias que correm todas as mentiras cristãs que ouvimos na catequese, todas as mentiras democráticas que lemos no jornal, todas as mentiras socialistas dos nossos intelectuais de estimação.
E é por causa de meia dúzia de podres, vígaros, sacanas, hipócritas personagens, que andamos todos à caça uns dos outros, pior que animais na selva.
Não embarco nessa jangada. Vou antes gritar de raiva; um grito agudo e lacinante como o da águia, aos ouvidos do mundo até que alguém me ouça; até que eu deixe de ser "isto" ou "aquilo" ou "não isto, não aquilo", nada. Não! Nada para lá de mim.
Dirão que abandonei o amor e a sanidade... Fodam-se! Fodam-se todos! No final da jornada, quando me sentir realmente "Eu", quando me encontar, talvez possa encontrar um melhor amor, uma melhor sanidade. Mas primeiro tenho de me encontrar. Um melhor "Eu".
E sei que não consigo amar ninguém, e acredito que não haja alguém capaz. É apenas hipocrisia sentimental. As pessoas usam-se como máquinas masturbadoras ou toalhas enxuga-lágrimas e chamam a isso amor.
O amor é um mito inventado por poetas e outros, que não conseguem enfrentar o mundo fora das quatro paredes, nos cantos das quais se encolhem e criam fantasias para auto-consolo.


Segunda-feira, 26 de Março de 2012

Azul Imenso

Se os teus olhos - esses olhos que agora cruzo - voassem sobre o mundo... Se esses olhos estivessem num ecrã do tamanho do céu, nenhum miúdo, com mísseis sob as asas, atingia gente sobre pontes.
Os teus olhos são azuis. Os teus olhos olham o mundo. Críticos. Nunca me perguntei porque os olhos onde me prendo teriam de ser azuis. Nunca perguntei porque nascem as coisas. Nem de onde vieram os teus olhos para me exaltarem o futuro.
Se alguém filmasse os teus olhos e os pairasse sobre o mundo todos os dedos apontariam para cima. Todos! E nenhum idiota olharia para o dedo.
Sim, sinto-me com a perspectiva do globo. A mesa ovalou. Jamais direi que os teus olhos olham o Sol a pôr-se quando olham assim. Sou só eu. Eu só. Alguém que já viveu tudo a que tinha direito. Isto é apenas uma bola extra, um desconto de tempo. Belisca-me, por favor. Belisca-me. Qualquer segundo a mais me faz pensar que não é possível ter mais sorte ainda.
Não é possível os teus olhos estarem ao alcance da minha mão; devia esticar os dedos e, como um menino, empurrá-los para dentro. Não os teus. Os meus. Para que não vejam tanta beleza. Para que não chorem quando te perder. Porque nenhum egoísmo deve resistir. Os teus olhos são do mundo; por mais que queiras. No único céu que os merece. Ao alcance de todos e não por cima desta mesa.
Não me importava de ser apenas uma criação tua. Aliás, queria ser apenas isso. Desde que fosses caprichosa e, quando me atirasses para um canto, te arrependesses e me fosses buscar. E me mimasses. E não me tivesses irreverssivelmente arrancado um braço. Ou - pior que tudo - a Alma. Sem ela dificilmente poderei dizer "Amor".
Os teus olhos são azuis. Azuis de mais. Não me perguntes porquê. Segue o voo das aves. Segue.
Os teus olhos têm de passar a linha do horizonte. É só lá que pairam.

Domingo, 25 de Março de 2012

Lágrima

Nasceste desta paisagem como as estevas que se eriçam pelas fendas dos xistos. Não tens ninguém para celebrar os ritos da tua morte. Ouve-se então o uivar do teu cão como se a sua alma animal cumprise o apaixonado dever de propagar a lengalenga fúnebre.
Tens os olhos fixos na massa que vai crescendo das tuas mãos escuras e nodosas. Dizes poucas palavras. De quando em quando apenas quebras um silêncio onde mordes a aflita alegria que a minha presença te provoca. E eu não sei que te dizer. Ergues-te, e noto que esse movimento arrepia a polpa aveludada dos meus dedos. E o impulso que te fazia rodopiar, esfregar nos troncos dos cedros, sentir sob os pés nús o verde arrepio da relva, mergulhar as mãos nos cabelos dos arbustos e beijar a boca húmida das flores, era um grito que sentias formar-se em ti. E sabes que dançavas porque querias ser amado, e amar na vertigem de ser amado.
Não sabes que vais morrer porque a natureza está morta, desfalecida no teu corpo que é uma forma sem vida a oferecer aos meus pés o doloroso prazer de eu te espezinhar. As pessoas morrem sem saber nada. Levantei-te o queixo e obriguei-me a olhar-te nos olhos que tinham o inquietante fascínio das luas de sangue. Viveste como um tirano, pois morre como um cão! Tenho nojo de ti. Agora as tuas verdades soam como um enfadonho desespero de um suicida profissional que nunca se chega a matar.
A morte já alisara o esgar que a agonia animalesca vincara nas tuas feições. É madrugada. Daqui a pouco um enxame de pequenas importâncias vai invadir a casa como moscas necrófilas, àvidas da anedota fúnebre que acaba sempre por ser o convívio social dos pêsames.
"Eu não vou ser assim", lembrei-me. Amarelecido numa fotografia de piquenique, antepassado de mim mesmo. Eu não vou ficar estupidamente feliz num retrato de casamento, um único momento de glória.

Quinta-feira, 22 de Março de 2012

Asas

Sim, voltei ao teu quarto. Deitei-me na cama só para olhar; ver-te dormir, dormir.
Foi no teu sonho que paseei, brinquei com ele. Vagueei-te por dentro, no mais fundo de ti. Porque no tacto excessivo me abriste a alma, galgámos tréguas e medidas. Passeias agora nos sonhos de falésia, brincas com eles. Cuidado! A um passo do vazio afagas o vento, afogas o medo. É teu; um reflexo dos teus olhos. Um contorno nos teus dedos. Ideia leve; mais leve que o ar? Nunca será demais.
Poder passear nos sonhos como se a realidade se olhasse confusa num espelho. De que lado estamos? Ensaiar um passo suave. Então a paisagem fica por baixo. Desfocada.
Onda contra a rocha no branco onde o tempo escorre o sabor único do teu corpo. Lembras-te daquele sonho em que ao cair acabávamos? Acordávamos de que sonho? Distante... Já nos cresceram as asas? Acorda-me se sonhar que acordo. No toque extremo, no limite. É sempre na pele que está o limite. Enquanto tivermos tacto, meu amor. É sempre na pele que mora essa porta por onde entras nos meus sonhos. E me dás os teus. É na pele que fazes esquecer as tragédias da cidade. Apagas as sirenes; lobos a uivar fados pelas vielas. É sempre na pele que o amor renasce, mesmo quando a pele está apenas memória. E a eternidade venha depois. Saciada.
Onda contra a rocha em ritual de espuma. Vertigem. Sentidos. Sentidos suaves, tocados pelos olhos mais fundos que o mar imagina. Quero-te com a força de explosões no Universo. Mas os teus olhos não são meus. Não mos dês nunca, mesmo que tos peça com doçura. Que chantageie, que implore. Não os percas. Guarda-os.
Traz-me imagens de coisas por oferecer. O que só tu vês. O que só posso sonhar.
Sentes as asas? Um passo mais. Só um...

Sábado, 2 de Abril de 2011

Consumo Interpares

Leio-te como a um livro de aventuras.
Aceitas partilhar esse mapa comigo, mesmo que eu não goste de mapas? Aceitas aguentar esta minha teimosia de querer ver claro o que, aos olhos de quase todos é nebuloso, repetitivo e confuso?
Aceitas que eu queira um dia ver e explicar para além das aparências adquiridas, dos princípios inabaláveis ou das verdades assentes que temos na matéria?
Aceitas que eu queira, por vezes, mergulhar mais intensamente ainda no mistério do Universo Humano que nos é estranho e, todavia, irresistivelmente chamativo?
Aceitas que eu possa fazer parte dos que desinquietam a nossa instalada ignorância?
Se me aceitasses... ler-me-ias como eu a ti?

Allegro ma non Troppo

Ainda não aprendi bem a lidar com aquela coisa do "não tenho nada mas tudo bem". Sim, porque um gajo precisa sempre de qualquer coisa a que se agarrar.
Espio nas montras a figura que não tenho e continuo com a figura que faço; sem deixar de ser o que nunca fui. O que deixo é um nome no arquivo, e continuo... sorna e mau. A viver com uma cara que mais parece um mapa de excessos.
Àqueles que me amaram na sua ternura quase insuportável deixo uma página em branco e outra sem leitura; uma faca sem lâmina a que falta o cabo quando penso em como sou pobre e levo uma vida tilintada por um pouco de cobre.
Querer viver... deixa-me rir; nem sabemos pedir. Estou onde não devia estar e vejo o meu coração fumegar na linha do horizonte. Contigo viajei, com a cara por lavar, aturei-te o arroto, o pivete, a coceira, a conversa pancrática e o jeito alvar. Ó coração meu, ainda tú estavas para nascer e já eu provara o gosto de pecar e de o saber; e tú de colher suspensa enquanto a sopa arrefecia. Seria eu a tua escolha? Abre os olhos e vê, que eu já me escolhi, sem ti!
Um último olhar ao mundo e depois que a ignomínia seja total.

Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011

Foolosophy

Há quem ache imoral a forma como amo. Diabólica possessão dos corpos escaldantes que se consomem e se confundem. Não haja medo de se deixar arrebatar pela paixão nem vergonha de mostrar os corpos nús, belos, puros.
Notam-me uma dura monotonia no olhar quando alguém me rouba as ilusões, me limpa a testa como se quisesse varrer-me dos beijos a saliva.
Guardo o mundo na gaveta, os delírios no sótão e a alma no tinteiro. Acaba tudo ao amanhecer com o acender da luz; o tempo é apenas tempo e por favor não denunciem a minha solidão só porque me desiludo em relações.
Serei capaz de abdicar de tudo quando o tempo me cheirar novamente a borboletas? Sabem, às vezes enfrento as manhãs assim, a lembrar amores esguios que me fugiam das mãos como palavras da boca. Mas só isso: palavras, só palavras. "Criadas ao seu dispôr", cartão de sanidade em dia e vendedoras de ilusões. E se pra todas estas uma vida não chegar, de quantas irei precisar?
Escrevo, recordo e adormeço; dou um nó na ponta da linha para não perder o fio à trama que teço. Ninguém ama eternamente e há tanta coisa para fazer.