Reencontrado o sexo, perdeu-se irremediavelmente o amor. O amor...
O desejo mais intenso é amar; amar alguém que ainda sabe sorrir.
Mesmo quando não tinha ninguém, mesmo assim eu amei. Sim, porque uma pessoa não pode guardar-se para si própria e encher-se com histórias e mentiras lindamente entretecidas. Mas como saber que realmente amamos alguém quando a única coisa que fazemos é foder? Gostaria, por vezes, que o coração pudesse ser um condomínio fechado, um lugar que não seria um lugar, longe de tudo e de todos. Sem cansaço, sem apatia, sem preguiça, sem "erros de casting", sem razão.
Mas a evidência desta característica tão humana - tentativa » erro - faz com que se encare a vida num oco "vai-se andando"; vivemos de memórias: "silencioso, um cigarro colado no canto do seu sorriso oblíquo... silencioso, o sol esgueira-se por entre as madeixas do seu cabelo..."
Não, não e não! Dessas historietas ando eu farto. Era uma vez, era uma vez... Ando farto de tudo o que está escrito, preto no branco; de espertezas saloias e latim de igreja. Serviu para me engordar; abri galerias à dentada nisso tudo, até á erudição. De pergaminhos manchados de bolor a
in-folia encadernados a couro. Todas as excreções da humana razão.
Ando farto de tantas súplicas de amor, farto de tanta fúria, farto de tanta amargura recalcada e balbuciante, farto de tanto medo de ganhar ou perder, farto de tanto medo de morte, de tanto medo daquela vida que me apetece viver...
Estou farto de ser obrigado a fornecer um insulto, farto da esperança idiota, de esperar as migalhas que caem da mesa, farto de ter de abanar a cauda e fingir-me contente com o "não sei quê" que nos trai e irrita, que nos deixa de mãos a abanar numa tarde de sol em que só nos apetece namorar com a vida.
Às tantas já nem sabemos quem é macho e quem é fémea. Mamíferos procriadores que gostariam de satisfazer-se autonomamente cfom a pila originária, na originária rata.
O Amor... esse feliz veneno cujo antídoto só o diabo conhece.