domingo, 6 de Dezembro de 2009

Hoje não há regras

Quem me dera ser um desses ourives das palavras, cujas descrições tornam os campos mais verdes do que o seu próprio verde. Que vivem em si como um comboio em andamento; na prolixidade de si mesmos, na saudade paradoxal.
Desses estou a mentiras de distância e já nem sei de onde parti. Escrevo, fotografo e guardo tudo no baú das memórias, caso o tempo não sobreviva aqui. Acaso consiga, um dia, ler tudo o que não escrevi.
Rejeitado como um pária, humilhado, cuspido na cara. Submisso, febril, embriagado. Obliterado, esboroado, tolhido, avassalado.
E subitamente... Oh, perversa transformação como a do rosto de Damócles. Funesta barbárie, ratoeira-detonadora neste campo minado que é a vida.
Vive-se, contudo. Mesmo numa era sombria alicerçada na precaridade da esperança, tenho coisas para fazer; coisas inomináveis mas nem por isso menos urgentes.
Nada, nada. Aneurisma. Todo e qualquer momento pode ser o último. Deito fogo ao baú das memórias porque, acho, destrói a liberdade do esquecimento.
Sem a mínima premonição, em total ignorância, caminharei por muralhas invisíveis, por detrás das quais nada existe, nem sequer a escuridão. Perdido para as pessoas e intocável para o pecaminosamente caro tempo. E é quando temos consciência de quão curto pode ser o nosso tempo de vida, que as regras já não se aplicam, quando os nomes são apenas sombras invisíveis com que os outros nos agasalham e nós a eles.
Como relacionar o complicado pensamento analítico com a(s) certeza(s) intuitiva(s)? Em qual dos dois devemos confiar? É certo que morro; mas viverei?
A vida... Se calhar não é tanto o que vivemos mas antes o que imaginamos viver.
A imaginação... O nosso último santuário, onde nos confronta e conforta o bálsamo da desilusão.

sábado, 28 de Novembro de 2009

Acto de contrição

Adoro esse teu cabelo escuro e liso, essas tuas sabrinas elegantes que te emprestam uma aura de boneca de porcelana sem o espectro da fragilidade.
Oh meu Deus, como sinto a tua falta; nem imaginas o quanto te quero. Ainda bem(?).
Embebedar-me contigo num qualquer dia da semana, a qualquer hora do dia ou da noite, num tasco qualquer a discutir sobre nada. Sem culpa nem remorso. Uma garrafa de bom tinto ou do verde que tanto aprecias, vestida nos tons violeta de que não abdicas. Olho-te sem dares conta, embasbacado e aturdido.
Não! Não quero flores tuas; quero contigo conhecer o jardim. Admirar o que podemos ver e sonhar com o que poderia ser...
Enfim, falhar melhor do que até aqui.
Oh adorável criatura que faz corar de vergonha o Diabo e pega fogo ao Inferno.
Não choro, mas sinto os olhos húmidos e ardentes quando te murmuro um tímido "adeus".

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Seria triste perder o futuro por causa do passado

De facto, a (minha) "situação" sujeita a análise e crítica leva-me à presença e à cara de ideias legítimas, quase espontâneas e lógicas, mas transformadas em ideologias. E se a ideia nasce e voga como expressão de um pensamento criador e universal, a ideologia apropria-se da ideia e serve-se dela para a submeter a projectos ou interesses subjectivos, particulares, restritos e pragmáticos.
Como consequência, a riqueza de ideias e de conceitos em si inovadores redunda em ideologias redutoras, constringentes e limitadoras, mais que discutíveis, não raro incómodas. E, no entanto, a natureza vinga-se. Vinga-se a natureza porque se vinga o homem, a sua inteligência e a sua criatividade, e também se vingam os sinais dos tempos, isto é, os sinais deste tempo em que vivemos.
As ideologias são por princípio conservadoras, enquanto fixam as ideias para delas elaborarem esquemas ou programas ao serviço de atitudes ou comportamentos. Mas os chamados "desafios" são verdadeiras investidas ou provocações contra o conservadorismo perigoso das ideologias. Se estas travam e condicionam a criatividade livre, os desafios abrem perspectivas novas e provocam a capacidade criativa para encontrar saídas e respostas para situações emergentes que reclamam resposta.
É de facto ousado, mas sadiamente ousado, enfrentar ideias e ideologias, feitas dogmas do nosso mundo e dos nossos contemporâneos. Mas também é extremamente positivo enfrentar, não para demolir por feitio, mas para contrapôr e propôr por convicção.
A competência fica provada até à exaustão... que não deixa de ser cansativa.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Passa aí a ver as nuvens

Debruçar a promessa de escape no parapeito da janela. Gosto de ver as nuvens. Gosto porque sim, sem entrada nem sobremesa.
Um pequeno ócio de céu aberto onde não damos nomes às coisas, é melhor só apreciá-las sem as tentar compreender. As coisas mudam muito depressa. Muito depressa. E eu sou um despistado, sôfrego do efémero. Eternamente fascinável.
A ideia é usufruir com prazer das coisas que o mundo nos proporciona sem custos. Nada mais fácil do que ficar a olhar o céu. apanhado na teia da preguiça. Mas sensível o suficiente para ver aquilo que outros insistem em ignorar. Nunca é demasiado tarde ou demasiado cedo para fazer o que quer que seja.

Mel, fel e vinagre

Expressar o corpo, encurtar distâncias: acariciar com os olhos, serenar com a voz. Saborear, na suspensão do instante, a sempre precária segurança de dois corpos resgatados da inescapável solidão.
Contemplar e fruir a beleza mesmo no corpo disforme ou deformado, cansado, decaído, envelhecido, rejeitado. Porque a beleza existe, mesmo quando o corpo não cumpre as dimensões do preconceito. Tocar o coração de alguém que nos inscreva no infinito, ainda que por breves instantes, que nos liberte do caos original; a eterna ânsia de expansão. Mais viva que a própria vida.
A curva do pescoço, aquela que me ferve o sangue quando te reclinas semi-nua, ou mesmo nua. Em cada ritmo e forma da natureza procuro e encontro razões para procurar, para despertar em mim as razões para te possuir; se formos todos parar ao inferno, não quero deixar de ir ao céu. Sempre que queiras.
Viver é uma coisa rara, a maior parte das pessoas apenas existe. Mas eu tenho uma vida própria, quase secreta, que se alimenta de si mesmo e dos "não-sei-o-quês" que o olhar encontra sem procurar.
Mas é com um sorriso amargo que digo não precisar de ninguém; que a garrafa ou a masturbação estão sempre ali à mão.
Arranjas aí um cigarro?

Sem filtro

O que outrora foi uma agradável surpresa, hoje não é mais do que uma penosa rotina. A lassidão dos dias onde me entretenho e consumo com alcool e psicoativos, perdidamente embrenhado na pacatez da vida. Voo e danço sozinho, com as asas que alguém me deu e ao som de música encharcada de absinto.
Sinto que já não há tutano para sugar; que fazer quando as coisas (as únicas coisas que ainda tinham valor) já não me dizem nada? Quando o vinho já não me embriaga, apenas me deixa a vista turva; quando a droga já não me intoxica, apenas entorpece corpo e sentidos; quando o sabor da comida desaparece, quando os dias no calendário e as horas no relógio deixam de fazer sentido; quando o coração bate apenas por capricho de uma máquina sem botão para desligar?
Vou por aí fora à procura de alguma coisa que ainda seja autêntica. O sorriso desarmante dos miúdos com que me cruzo na rua, a lambidela despropositada mas autêntica com que sou brindado assim que entro em casa... mas nem isto me chega.
Quero mais; saltar na "corda bamba" sem rede de protecção, percorrer caminhos que ninguém sabe ao certo qual o destino, se é que o há. Não sou apologista de viver cada momento como se fosse o último, mas sim como sendo o primeiro, o início; afinal "o caminho faz-se caminhando", certo?
É desta. Alguns trocos no bolso, muitos sonhos na cabeça, e uma vontade imensa na alma. É isto que quero, por mim, egoista...

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Insaniens

As únicas pessoas para mim são os loucos.
Loucos para viver, loucos para serem salvos. Desejosos de tudo ao mesmo tempo. Aqueles que nunca bocejam ou usam um qualquer "lugar-comum"; mas queimam e incendeiam. Queimam como só o fogo é capaz. E explodem desenhando aranhas por entre as estrelas. E bem no meio, no centro, vemos aquele azul brilhante e intenso...
Toda a gente fixa o olhar, abre a boca em espanto e diz: "Ahhhh"...