terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Passa aí a ver as nuvens

Debruçar a promessa de escape no parapeito da janela. Gosto de ver as nuvens. Gosto porque sim, sem entrada nem sobremesa.
Um pequeno ócio de céu aberto onde não damos nomes às coisas, é melhor só apreciá-las sem as tentar compreender. As coisas mudam muito depressa. Muito depressa. E eu sou um despistado, sôfrego do efémero. Eternamente fascinável.
A ideia é usufruir com prazer das coisas que o mundo nos proporciona sem custos. Nada mais fácil do que ficar a olhar o céu. apanhado na teia da preguiça. Mas sensível o suficiente para ver aquilo que outros insistem em ignorar. Nunca é demasiado tarde ou demasiado cedo para fazer o que quer que seja.

Mel, fel e vinagre

Expressar o corpo, encurtar distâncias: acariciar com os olhos, serenar com a voz. Saborear, na suspensão do instante, a sempre precária segurança de dois corpos resgatados da inescapável solidão.
Contemplar e fruir a beleza mesmo no corpo disforme ou deformado, cansado, decaído, envelhecido, rejeitado. Porque a beleza existe, mesmo quando o corpo não cumpre as dimensões do preconceito. Tocar o coração de alguém que nos inscreva no infinito, ainda que por breves instantes, que nos liberte do caos original; a eterna ânsia de expansão. Mais viva que a própria vida.
A curva do pescoço, aquela que me ferve o sangue quando te reclinas semi-nua, ou mesmo nua. Em cada ritmo e forma da natureza procuro e encontro razões para procurar, para despertar em mim as razões para te possuir; se formos todos parar ao inferno, não quero deixar de ir ao céu. Sempre que queiras.
Viver é uma coisa rara, a maior parte das pessoas apenas existe. Mas eu tenho uma vida própria, quase secreta, que se alimenta de si mesmo e dos "não-sei-o-quês" que o olhar encontra sem procurar.
Mas é com um sorriso amargo que digo não precisar de ninguém; que a garrafa ou a masturbação estão sempre ali à mão.
Arranjas aí um cigarro?

Sem filtro

O que outrora foi uma agradável surpresa, hoje não é mais do que uma penosa rotina. A lassidão dos dias onde me entretenho e consumo com alcool e psicoativos, perdidamente embrenhado na pacatez da vida. Voo e danço sozinho, com as asas que alguém me deu e ao som de música encharcada de absinto.
Sinto que já não há tutano para sugar; que fazer quando as coisas (as únicas coisas que ainda tinham valor) já não me dizem nada? Quando o vinho já não me embriaga, apenas me deixa a vista turva; quando a droga já não me intoxica, apenas entorpece corpo e sentidos; quando o sabor da comida desaparece, quando os dias no calendário e as horas no relógio deixam de fazer sentido; quando o coração bate apenas por capricho de uma máquina sem botão para desligar?
Vou por aí fora à procura de alguma coisa que ainda seja autêntica. O sorriso desarmante dos miúdos com que me cruzo na rua, a lambidela despropositada mas autêntica com que sou brindado assim que entro em casa... mas nem isto me chega.
Quero mais; saltar na "corda bamba" sem rede de protecção, percorrer caminhos que ninguém sabe ao certo qual o destino, se é que o há. Não sou apologista de viver cada momento como se fosse o último, mas sim como sendo o primeiro, o início; afinal "o caminho faz-se caminhando", certo?
É desta. Alguns trocos no bolso, muitos sonhos na cabeça, e uma vontade imensa na alma. É isto que quero, por mim, egoista...

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Insaniens

As únicas pessoas para mim são os loucos.
Loucos para viver, loucos para serem salvos. Desejosos de tudo ao mesmo tempo. Aqueles que nunca bocejam ou usam um qualquer "lugar-comum"; mas queimam e incendeiam. Queimam como só o fogo é capaz. E explodem desenhando aranhas por entre as estrelas. E bem no meio, no centro, vemos aquele azul brilhante e intenso...
Toda a gente fixa o olhar, abre a boca em espanto e diz: "Ahhhh"...
Só é pena já cá não estar.

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Mente comigo

Reencontrado o sexo, perdeu-se irremediavelmente o amor. O amor...
O desejo mais intenso é amar; amar alguém que ainda sabe sorrir.
Mesmo quando não tinha ninguém, mesmo assim eu amei. Sim, porque uma pessoa não pode guardar-se para si própria e encher-se com histórias e mentiras lindamente entretecidas. Mas como saber que realmente amamos alguém quando a única coisa que fazemos é foder? Gostaria, por vezes, que o coração pudesse ser um condomínio fechado, um lugar que não seria um lugar, longe de tudo e de todos. Sem cansaço, sem apatia, sem preguiça, sem "erros de casting", sem razão.
Mas a evidência desta característica tão humana - tentativa » erro - faz com que se encare a vida num oco "vai-se andando"; vivemos de memórias: "silencioso, um cigarro colado no canto do seu sorriso oblíquo... silencioso, o sol esgueira-se por entre as madeixas do seu cabelo..."
Não, não e não! Dessas historietas ando eu farto. Era uma vez, era uma vez... Ando farto de tudo o que está escrito, preto no branco; de espertezas saloias e latim de igreja. Serviu para me engordar; abri galerias à dentada nisso tudo, até á erudição. De pergaminhos manchados de bolor a in-folia encadernados a couro. Todas as excreções da humana razão.
Ando farto de tantas súplicas de amor, farto de tanta fúria, farto de tanta amargura recalcada e balbuciante, farto de tanto medo de ganhar ou perder, farto de tanto medo de morte, de tanto medo daquela vida que me apetece viver...
Estou farto de ser obrigado a fornecer um insulto, farto da esperança idiota, de esperar as migalhas que caem da mesa, farto de ter de abanar a cauda e fingir-me contente com o "não sei quê" que nos trai e irrita, que nos deixa de mãos a abanar numa tarde de sol em que só nos apetece namorar com a vida.
Às tantas já nem sabemos quem é macho e quem é fémea. Mamíferos procriadores que gostariam de satisfazer-se autonomamente cfom a pila originária, na originária rata.
O Amor... esse feliz veneno cujo antídoto só o diabo conhece.

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Soníloquo

A quem poderia pegar na mão e dizer: "Ainda estamos cá! Existimos! Queremos, havemos de fazer... Expôr à luz a verdade, essa intrusa. Quer-se dita, e portanto di-la-emos. Como que um excesso que nunca sacia."
Senão para quê esta força soberba que é a nossa juventude? Há que berrar! Ou então estaremos condenados a pagar a factura da eterna busca pela verdade. Tentativas vãs para corrigir Deus agora que o mundo parece sair dos gonzos.
Patrocina-se e incentiva-se o diálogo, entendido como o cruzamento entre frivolidade e superficialidade quando o sentido verdadeiro de diálogo devia ser um local onde duas almas se encontram e se desnudam.
Não te basta existires só em sonho, seres sonhado unicamente por mim, e estares isento de responsabilidades, uma vez que não existes a não ser nos meus sonhos? O sonho engarrafado onde nos apertamos um contra o outro até sermos uma só carne. Só o homem ama por qualquer preço, fora da estação (cio) até à loucura e para lá da morte.
Rio-me. A minha boca em cú de galinha lança beijos para o ar... Quero que hoje a miséria de todos os dias - a mentira - fique fora destes muros.
Entristeço-me contudo, porque poucos aprendem a lição. E tudo o que aconteceu ontem pode voltar amanhã.
E eu, caído dos meus sonhos, apenas eu?

Chusma

É possivel que a fome nos tenha acicatado o desejo de morder; o restolhar de folhas secas no chão quase nos esgota a saliva e os dentes parecem já querer abocanhar. Sonhamos já com aqueles que julgam estar a sonhar connosco.
Inflamo-me, agito-me, revolto-me.
Cheio de medo, meto medo aos outros; mas já me toparam. Os olhos injectados de sangue, inquisidores, dos que chamo irmãos procuram, no último instante, rechaçar qualquer réstia de medo que me possa ter assaltado.
Confronto-os com frieza e secamente rodo a cabeça para o sítio onde, num piscar de olhos já sinto o turbilhão de sensações que jorros de sangue quente me proporcionam. Quase que o sentimos palpitar ainda. Mas o medo continua; e eles sabem-no. Cedo ou tarde começarei a ser invisível; ninguém presenciará a minha presença, ninguém valorizará o meu valor. Mas até lá, e enquanto tiver unhas e dentes terei atenção; é um passaporte para ser visível.
Não me podem tirar o medo, é ele que me dá força e asas. Não serei mais um refugo lançado fora ou mais um predador falhado; no máximo um vagabundo, um actor. Trânsfuga e cúmplice.
Tenho medo sim, mas é de mim. Da minha frontalidade, verve, ousadia...
Basta!
Eu incarno a náusea, digo adeus sem saber a que digo adeus; sou capaz de tudo e vice-versa. Eu sou o medo. E é este "ser" que me mete medo.
Isso e o medo de falhar. Aquele instante que vivemos em câmara lenta, antes da estocada final.
O medo de falhar... O prazer da carne... O medo de falhar...
Fito-a! Única e inesquecível. Aquela flexão do braço, este nascer do pescoço, das veias a latejar. Sim, eu sinto-o.
O olhar trágico, cansado, e no entanto imperioso. Transpira medo por todos os poros e eu quase tenho pena...
Reparo de soslaio por cima do ombro e fito os que me seguem; cerro os dentes e lanço-me.
O medo de falhar... A fome insaciável... O medo de falhar